segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

saindo da crise

No princípio eu conheci Regiane. Isso me traria mágoas. Era um daqueles períodos em que eu vivia sem rumo, então me agarrei a ela com todas as minhas forças. Conheci o amor que não existia em todo o meu passado  vazio. Quando começamos a planejar o futuro foi que se tornaram claras as nossas diferenças. Regiane não se conformava com o mundo em que vivia. Dos seus sonhos de infância até ali bem poucos se haviam tornado realidade, e ela não se permitia a rir disso. Aos poucos fui me convencendo de que a nossa convivência seria difícil. Ela se negava a falar de amor, dispensava gentilezas e mostrava desprezo pelo meu trabalho modesto. Naquele tempo tive medo de perdê-la. Imaginava que ninguém seria capaz de preencher o vazio deixado por ela. Até que ela perdeu a paciência e se encarregou de colocar um fim na nossa curta história. Estou resumindo um momento difícil. Ela pareceu sair ilesa e eu me recusava a entender afinal em troca de quê ela estava me deixando. Continuaríamos a nos ver regularmente. Frequentávamos a mesma igreja que nós havíamos conhecido. Às vezes eu a tratava de modo rude mas ela jamais se incomodou com isso. Era madura o bastante pra compreender o momento que eu estava atravessando. Por outro lado sua persistência em não me negar o costumeiro calor humano às vezes reacendia em  mim a esperança de que ela ainda se importasse. Mas eram apenas gentilezas da parte dela e mais nada. Durante muito tempo eu agonizava prevendo o momento em que ela assumiria  um novo e verdadeiro amor ,o que para minha surpresa nunca aconteceu.

Religião sempre foi um capítulo importante da minha vida, sem o qual nada dessa história faria sentido. Naquela vida de altos e baixos houve esse momento de desânimo.O zelo de Regiane tão evidente em sua devoção religiosa mas ao mesmo tempo ausente em suas afeições pessoais me levou a reavaliar  o que realmente é espiritualidade. Deixei de lado minhas atividades na igreja. Faria apenas o suficiente para preservar aquilo que chamamos de identidade cristã. Então me tornei uma escória abandonada  num canto. Naquele ambiente se você tem um problema você é um problema.

Rejeitado por alguém com quem tinha feito tantos planos  estava mais disposto a questionar a mim mesmo.

O primeiro passo para sair do fundo de um poço é parar de cavar. Queria contar uma história fantástica sobre arrebatamento, porém eu não tenho uma. Mas eu ainda me lembro daquela tarde em que despertei. Era inverno mas fazia um calor insuportável.  Passava pela calçada da antiga loja maçônica - a sociedade Rui Barbosa. O lugar até então me inspirava preconceitos. Do lado esquerdo da escadaria havia uma porta de atendimento ao público onde as pessoas tomavam emprestadas  muletas e cadeiras de rodas.Ela estava aberta e lá estava o senhor Sebastião Pedro que zelava pelo prédio.Ele acenou  me pedindo que lhe fizesse um favor. Não tive tempo de inventar uma desculpa para não ter que me aproximar daquele lugar “amaldiçoado”. Ele quebrou qualquer resistência explicando que já passara por seis cirurgias na coluna











distante. Talvez por isso ou por força do hábito ,eu costumava frequentar uma biblioteca pública. Não havia ali uma enxurrada de livros mas havia o bastante.E foi ali numa dessas tardes  sem sentido que eu despertei. Era inverno,mas fazia um calor insuportável. Não me lembro que tipo de literatura eu procurava. Caminhava  por aqueles corredores e o piso rangia sob os meus pés. Me deparei com aquele homem de  boa aparência .Ele usava um terno escuro e mantinha os botões soltos.O tecido parecia leve, uma camisa branca perfeita mas não usava  gravata. Seus olhos percorriam serenamente as estantes. Invejando até o brilho daqueles sapatos eu conheci Lucas Barriviera ,o  homem capaz de paralisar o tempo.

-”Já ouviu falar de lei da atração?” - ele me perguntou.

-”Pronto”.- pensei- “É um afeminado”.

-”Antes que você pense besteira; não tem nada a ver com sexo”.

Tive a perturbadora sensação de que ele estava lendo meus pensamentos.

-”Não,eu não estou lendo seus pensamentos.Eu apenas sei o que você pensa”.

-”Você deveria ler alguns livros do Napoleon Hill.Te ajudariam a sair do lugar em que você está agora”.

Sem que eu fizesse perguntas ele prosseguiu:-”Eu gosto de recomendar esse tipo de leitura porque algumas pessoas merecem se libertar dessa cegueira que contaminou toda a humanidade”. E assim ele me falava pausadamente e gesticulando suavemente com as mãos.

-”Sei que você acredita num paraíso na terra,mas até que isso aconteça você precisa sobreviver”.

Eu não tinha palavras;não sabia argumentar. Em outros tempos fugiria daquele homem. Mas agora aquela conversa me parecia muito agradável. E eu compreendia que algo me havia levado até aquele momento.Ainda sinto no íntimo um misto de angústia e excitação sempre que me recordo daquela nossa primeira conversa. Sua maneira ousada e confiante de me abordar me causou tal impressão que eu não desejo tirar da mente.

-”Meu nome é Lucas. Sou comerciante. Tenho um viveiro de plantas”.

-”Sei que você vai querer ler os livros”- ele disse. ”-Mas nessa biblioteca você não vai encontrar.Sabe onde fica a loja maçônica? A sociedade Rui Barbosa?”

Ele me deu todas as instruções e saiu. Naquele mesmo fim de tarde eu passei por lá e a esquerda da escadaria havia uma porta de atendimento ao público. Lá conheci o senhor Sebastião Pedro o sapateiro. Ele zelava pelas muletas e cadeiras de rodas que eram emprestadas para as pessoas. Quando lhe falei que tinha ido buscar um livro ele já sabia do que se tratava:

“-Só pode ser coisa do português”.

Ele me entregou “pense e enriqueça - de napoleon Hill”.

Eu me lembro que na primeira conversa o senhor Lucas havia me dito que eu não  o lesse somente pensando em ficar rico, mas mas antes de mais nada com o desejo de ser livre. Em menos de uma semana  devorei aquele livro. Fui completamente possuído pelo que ele continha. Era como uma experiência religiosa; pela primeira vez me sentir capaz de traçar meu próprio destino. Mas no meu íntimo a imagem de um Deus pessoal sempre esteve profundamente arraigada. Nunca fez sentido o universo ser tão poderoso e ao mesmo tempo manipulável. Na minha mente as leis da atração encontraram seu limite. Isso não comprometeu o meu desenvolvimento nesse campo. Mesmo as pessoas mais espirituosas costumam excluir Deus de suas vidas em momentos convenientes. Aprendi muito disso na igreja. Não é impossível sobreviver a esse pecado. Deixe-me contar como isso te afeta.